Denúncia: A exploração de órfãos no Camboja

Andre 22 de agosto de 2013 0

capaHá certo tempo, antes da Angelina Jolie fazer uma mastectomia, ela adotou uma criança cambojana. Como resultado, ocidentais privilegiados de todas as nacionalidades invadiram os orfanatos do país na esperança de alimentar simultaneamente uma criança e suas próprias autoestimas.

Só em 2012, o Camboja foi visitado por 3,5 milhões de turistas, então, é provável que alguém tenha, finalmente, juntado um mais um e percebido que as centenas de orfanatos do país poderiam estar sendo explorados como atrações turísticas em razão do aumento de visitantes estrangeiros.

A explosão de orfanatos no país começou no início dos anos 1970, quando Pol Pot saqueou o país, intencionalmente dividindo vilarejos, massacrando famílias e prendendo a população educada numa tentativa de vencer a guerra civil. A tática acabou funcionando para Pol e seu regime Khmer Rouge, mas deixou milhares de crianças sem terem para onde ir. Logo, diversas ONGs apareceram para salvar a situação, construindo orfanatos por todo o país.

Trinta anos depois, o Camboja ostenta mais de 500 orfanatos – um número que dobrou na última década, provavelmente por causa das grandes doações que essas instituições recebem, um jeito muito mais fácil de fazer dinheiro do que realmente trabalhar. Infelizmente, esse pequeno truque parece ter caído no conhecimento público e, agora, a exploração dos órfãos se tornou uma indústria multimilionária local em pleno florescimento.

O Dr. Setan Lee – um cambojano que sobreviveu à era Khmer Rouge – assistiu ao espalhamento da corrupção por meio dos orfanatos do país. “Alguns ocidentais vêm para o Camboja sob o pretexto de ajudar os órfãos”, Lee me disse, “mas o que querem é conseguir levar um estilo de vida luxuoso” desviando para os próprios bolsos as doações que deveriam ir para as crianças.

Esquemas de acolhimento e planejamento familiar efetivo são alternativas muito melhores para orfanatos, mas, infelizmente, nenhuma dessas coisas possui extensão suficiente no Camboja no momento, principalmente por causa da economia subdesenvolvida do país. De acordo com Tara Winkler, fundadora do Cambodia’s Children’s Trust (CCT), é essa mesma economia e a “falta de apoio alternativo” que fazem os pais “serem forçados a vender suas crianças” para os orfanatos.

Tara prossegue, dizendo que há uma percepção comum entre os pais cambojanos de que, se mandarem seus filhos para orfanatos, eles receberão “educação, cuidado médico e uma melhor nutrição”. Essa percepção quer dizer que, atualmente, os orfanatos não cuidam mais somente de órfãos, mas também de filhos de famílias pobres.

Na verdade, de acordo com um estudo de 2011 da UNICEF, três entre quatro crianças nos orfanatos do Camboja ainda têm pais vivos. O que parece um desvio da definição de “orfanato”, mas aqueles no comando dessas instituições não poderiam ligar menos para coisas como definição e até mesmo moralidade, já que, quanto mais crianças sob seus cuidados, maiores são as doações que eles usam para seus próprios fins. Um esquema bem-intencionado que acabou se tornando uma brecha para corruptos, sendo que alguns orfanatos chegam a oferecer pequenas somas em dinheiro para os pais em troca de seus filhos.

Um grande número de orfanatos não licenciados pipoca agora por todo o Camboja e começa a empurrar as crianças para dentro de suas portas. Tara me contou que esses locais “operam sem registro oficial e sem documentação essencial, como as políticas de proteção à criança”. Então, é possível imaginar o que ocorre por trás das portas desses lugares, mas Tara tem certeza de que, seja lá o que for, é algo profundamente corrupto. O Dr. Lee vai além, afirmando que as crianças desses orfanatos sem licença são “forçadas a trabalhar”. Igual ao Oliver Twist, mas com cuidadores exploradores e moralmente corruptos que arruínam vidas em vez de malucos carismáticos que ensinam a bater carteira.

As crianças desses orfanatos raramente recebem qualquer educação, e no lugar são colocadas para trabalhar até que os turistas apareçam e elas virem iscas de doação. Sem surpresa, pouco desse dinheiro é gasto com o cuidado delas. E não é só o desgaste físico dessas crianças que preocupa, mas os danos emocionais de ser entregue pelos próprios pais a instituições onde elas são forçadas a viver em situação pior do que em casa.

Tara trabalha com muitas crianças e famílias em Battambang, uma região no noroeste do Camboja, e resume suas observações quanto aos sentimentos das crianças de forma bastante concisa. “Imagine ser um em 100”, ela diz. “Imagine não entender direito porque você foi tirado de sua família, imagine como é sentir falta de seus pais e de seus irmãos sabendo que eles estão a poucos minutos de caminhada estrada abaixo.”

Tara adverte também que a transformação das crianças em “atrações turísticas” não é o pior dos problemas que assola os orfanatos do Camboja atualmente. O abuso sexual é abundante e de acordo com o Dr. Lee, pedófilos do ocidente viajam até o Camboja para trabalhar nesses orfanatos, somente para ter acesso fácil e sem supervisão a essas crianças.

Em 2007, a CCT resgatou 14 crianças de um orfanato chamado Sprouting Knowledge Orphans, onde o diretor abusava sexualmente e fisicamente das crianças sob seus cuidados. Segundo Tara, as crianças ali “recebiam tão pouca comida que precisavam caçar ratos para sobreviver”. Trabalhando no país nos últimos seis anos, Tara me assegurou que casos assim são endêmicos nos orfanatos do Camboja.

No começo do ano, um orfanato dirigido por australianos foi fechado devido a acusações de abuso infantil e tráfico de crianças. O orfanato em questão – chamado sinistramente de Love in Action – tinha 21 crianças “resgatadas” das ruas de Phnom Penh e, como muitos outros, não era registrado. Uma semana depois, um diretor de outra instituição na cidade de Siem Reap foi preso por abusar sexualmente de duas garotas, uma de 11 e outra de 12 anos. Seu orfanato continua em funcionamento, mas espera-se que seja fechado em breve.

Apesar disso, inicialmente, parecer algo bom, quando os orfanatos são fechados – ou quando as crianças escapam ou se tornam muito velhas pra ficar neles – elas acabam nas ruas, já que não têm família nem apoio. E elas terminam presas a trabalhos que nunca poderiam ser exercidos por crianças.

As meninas com frequência acabam se oferecendo para turistas sexuais geriátricos em pequenos bares sujos e as outras crianças – de acordo com o Dr. Lee – lotam as fábricas por não terem a educação exigida para tentar nenhum outro emprego. Isso pode até parecer melhor do que a prostituição, mas a vida nas fábricas do Camboja não é nada desejável, basicamente, com desnutrição garantida, salários excepcionalmente baixos e só quatro dias de folga por mês.

Levou 20 anos para que o governo cambojano estabelecesse um sistema legal para punir os membros do Khmer Rouge culpados de genocídio no começo dos anos 1970, então, é pouco provável que as autoridades se mobilizem para impedir a exploração dos orfanatos em breve. Acentuando ainda mais o problema, o Dr. Lee me conta que qualquer “£500 ou £1000 (de R$1.500 a R$3.000) servem para manter a boca [das autoridades] fechada. Assim, é muito difícil mandar essas pessoas para a prisão por causa da corrupção no governo”.

O governo do país chegou a prometer uma investigação e, se necessário, batidas nos orfanatos ilegais. No entanto, ainda não há sinal do início dessas atividades. O objetivo mais realista, de acordo com Tara e o Dr. Lee, é tentar manter as crianças com seus pais, mas isso é muito mais fácil de falar do que fazer numa cultura em que os pais realmente acreditam que os orfanatos podem oferecer melhores perspectivas de vida do que eles próprios para seus filhos.

Claro, há orfanatos legítimos e licenciados que fazem as coisas do jeito certo e são realmente capazes de oferecer o futuro que essas crianças merecem. Então, talvez seja hora de prestar mais atenção para onde, exatamente, essas doações vão.

Fonte: Vice.com

Deixe seu comentário »